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O melhor da poesia americana (e o pior da brasileira)


Carlos Machado


Conheci há pouco tempo uma série de livros estadunidenses chamada The Best American Poetry, publicada anualmente desde 1988. Criado e editado pelo poeta e crítico literário David Lehman, esse anuário apresenta em cada edição 75 poemas de 75 poetas. Os textos são extraídos das revistas literárias americanas que circulam durante o ano de referência. A rigor, cada edição refere-se mais exatamente ao calendário poético do período anterior ao que aparece na capa. Cada poema vem com o nome do autor e o título da publicação de onde foi tirado. A sequência dos textos obedece à ordem alfabética dos nomes dos poetas. Seriam, portanto, os melhores poemas do ano, sem classificação. No final do volume, há uma seção com a lista completa das revistas que publicaram aquelas composições pela primeira vez.

Desde o número inicial, o editor convida um poeta ou crítico conhecido, que realiza a seleção dos poemas e ainda escreve um longo ensaio a respeito daquela colheita anual. Assim, o volume The Best American Poetry 1988, o primeiro da série, teve como editor convidado o poeta John Ashbery (1927-2017), considerado um dos grandes nomes da lírica americana no século XX. O anuário de 1992 contou com Charles Simic (1938-2023), ganhador do prêmio Pulitzer em 1990 e, depois, Poeta Laureado dos Estados Unidos em 2007. Na seleção de 1993, a convidada foi Louise Glück, que viria a arrebatar o Prêmio Nobel de 2020.

Em 1998, o celebrado crítico Harold Bloom (1930-2019) assumiu o papel de editor convidado para uma edição muito especial. Ele coordenou o volume The Best of The Best American Poetry 1988-1997. Bloom pegou todas as edições publicadas nos primeiros dez anos e delas selecionou os 75 melhores poemas, segundo seu critério. Em 2013 houve outra edição The Best of The Best, nesse caso para comemorar os 25 anos do periódico. Portanto, a publicação de David Lehman repousa sobre uma ideia excelente e ele acredita que o anuário oferece uma indicação confiável sobre a qualidade e a diversidade do que andam escrevendo os poetas nos Estados Unidos, ano após ano. Aliás, no prefácio à seleta de 2021, o próprio Lehman pavoneia as conquistas de sua série poética, lembrando que onze editores convidados se tornaram, depois, Poetas Laureados dos EUA. E, obviamente, não deixa de citar Louise Glück, a Nobel do ano anterior.

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Após folhear algumas edições, pensei comigo: seria interessante ter uma publicação dessas no Brasil. Seria? Em tese, a resposta é sim, mas na prática um anuário desse tipo não é possível entre nós. Para começo de conversa, diferentemente dos Estados Unidos, não temos a incrível quantidade de revistas de poesia e de publicações não especializadas que também divulgam poesia. A revista The New Yorker, por exemplo, é um semanário de interesse geral que normalmente publica ficção e poesia. Em cada edição o leitor encontra lá pelo menos dois poemas inéditos.

No volume The Best American Poetry 2018 – tomo aqui uma edição a esmo –, os textos foram extraídos de 58 publicações, sendo que 17 delas forneceram mais de um poema. Entre estas destacam-se a Poetry, revista bimestral publicada pela Poetry Foundation, e a já citada The New Yorker. Há ainda outras, como a Southwest Review (de Dallas, Texas); Birmingham Poetry Review (de Birmingham, Alabama, ligada à universidade desse estado); Gulf Coast (de Houston, Texas); The American Poetry Review (de Filadélfia, Pensilvânia); e The Sewanee Review (da University of South em Sewanee, Pensilvânia).

Ao analisar a lista de publicações que trouxeram à luz pela primeira vez os poemas da edição The Best de 2019, constatei um número ainda mais variado de títulos. Há desde revistas diárias online (como Poem-a-day, da Academy of American Poets, e Poetry Daily, publicada em Fairfax, na Virgínia) até antologias como a Freeman’s, na qual cada edição reúne textos de ficção, não ficção e poesia, baseados num tema específico. Mesmo sem conhecer essas revistas, noto que elas têm sedes em diferentes partes dos Estados Unidos. Numa visita aos sites, observa-se ainda que, editadas no epicentro do capitalismo mundial, quase todas elas são publicações comerciais, com anúncios e vendas de assinaturas. Isso vale, inclusive, para os títulos vinculados a universidades ou a entidades culturais. Se a seleção da Best American Poetry baseia-se em universo tão extenso e variado, é bem provável que de fato apresente um bom retrato da melhor poesia surgida durante o ano. Para reforçar essa possibilidade, não se deve esquecer que as publicações originais também fazem suas seleções. Quanto aos resultados comerciais da iniciativa, basta dizer que esse anuário americano é publicado pela editora internacional Simon & Schuster, empresa que certamente não sustentaria, durante mais de três décadas, um periódico deficitário.

Mas retorno: e se tentássemos fazer algo similar no Brasil? De saída, empacaríamos na falta de fontes. Quantas publicações literárias de circulação regular temos no país? Que eu saiba, contam-se nos dedos – e, talvez, lamentavelmente, de uma só mão. Revista de interesse geral que publica poesia, acho que só existe uma — a piauí. Sem recursos, as revistas acadêmicas circulam (quando circulam) de forma muito restrita: ficam dentro das próprias universidades. Além disso, não têm por hábito trazer à luz poemas inéditos. Por fim, os grandes jornais, cada vez mais culturalmente desenxabidos, abandonaram de vez a literatura. Portanto, não há como promover uma seleção de melhores poemas do ano com base em universo tão restrito. Seria como tentar pescar em rio seco.

Até aqui tocamos apenas na casca das impossibilidades. No miolo desse fruto amargo reside algo ainda pior: a minguada existência de leitores. Além do poder de compra, o interesse pela leitura é que constrói o mercado livreiro. Se entre nós sempre foi parca a procura de livros em geral, quem vai se importar com publicações de poesia? Aí está, portanto, o que há de pior na poesia brasileira. O problema não se localiza na poesia em si, mas na falta de divulgação, na escassez de leitores, na insuficiência de meios para a circulação de “livros à mancheia”, como pregava o poeta Castro Alves.


Carlos Machado é jornalista e poeta.

Para saber mais, o site do anuário The Best American Poetry: http://www.bestamericanpoetry.com/

Página do anuário no site da editora Simon & Schuster: https://www.simonandschuster.com/books/The-Best-American-Poetry-2022/David-Lehman/The-Best-American-Poetry-series/9781982186685

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