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Escritas de si

Atualizado: 26 de abr. de 2023

Espetacularização?


O indecidível que paira sobre a crescente produção literária autoficcional remete-nos, em princípio, à fabulação desmedida e à espetacularização do

sujeito contemporâneo. No exame desse novo fenômeno e da recorrência ao termo autoficção para nomear um número extraordinário de produções literárias na contemporaneidade, é válido cumprir um breve percurso e estabelecer alguns marcos históricos.

As escritas de si, na acepção de produção em primeira pessoa que

performa a noção de sujeito, remetem a longínquas tradições do Ocidente.

Nesse sentido, podemos tomar Agostinho como autor da primeira obra

biográfica – As Confissões –, no século IV, apesar das formas da

correspondência já terem registros históricos desde os séculos I e II. Nas

cartas, o conhecimento de si é o motor do registro, mas, para além da

constituição de um sujeito, identifica-se o propósito do ato de mostrar-se: “[...] a

carta, que trabalha para a subjetivação do discurso, constitui ao mesmo tempo

uma objetivação da alma. Ela é uma maneira de se oferecer ao olhar do outro”,

afirma a pesquisadora Diana Klinger.

A partir do Renascimento, a perspectiva é diversa e a escrita de si adota

como eixo um sujeito que descarta a submissão a modelos preestabelecidos.

Montaigne e os ensaios produzidos no século XVI são uma referência

emblemática dessa manifestação, mas já trazem em seu projeto um indivíduo

que se autoriza a valorizar a experiência pessoal como pressuposto para a

análise de diferentes temas.

Na modernidade, o sujeito em crise adota como orientação uma

consciência reflexiva. O deslocamento desse sujeito tem uma de suas

primeiras referências no questionamento de Nietzsche, no século XVIII, ao

cogito cartesiano, à falsa instância do pensar e sua falibilidade enquanto

pressuposto de verdade. Ao retomar essa reflexão, a formulação de Foucault

sobre a verdade a apresenta como elemento constitutivo de um jogo histórico,

que se relaciona tanto com práticas subjetivas como com mecanismos de

poder.

O sujeito que chega ao século XX traz, assim, na bagagem, uma crise

moral e social e um eu múltiplo a conjugar dinâmicas de forças contraditórias. É

esse sujeito cindido que, na expressão estética, depara-se com nova crise,

agora da representação, e com a ruptura da autoridade autoral. Foucault e

Barthes assinalaram, nos anos estruturalistas de 1960 e 1970, essa perda de

nitidez e espessura da figura autoral. A dessacralização do autor dá lugar à

linguagem, à função autor, a criações intervalares, em última instância, a uma

fratura.

Nos finais do século passado e inícios do século XXI, a reivindicação de

lugares de fala e do nome próprio engendram um novo projeto: a autoficção.

Em resposta a Philippe Lejeune e a seu quadro-síntese sobre possibilidades

autobiográficas – que combina pacto autobiográfico com a presença ou não do

nome do autor e deixa uma casa vazia - na publicação O pacto autobiográfico,

de 1973, Serge Doubrovsky responde, no romance Fils, de 1977, com a

criação do neologismo. A partir de então, uma horda de autores emergiu de

seus laboratórios de artífices para reivindicar novo contrato de subjetividade.

Na literatura, essa autorreferência da primeira pessoa, sem compromisso com

a cronologia, a linearidade e a verificabilidade, assinala, segundo Diana Klinger,

em Escritas de si, escritas do outro (2007), novas perspectivas de

questionamento da identidade, caracterizadas não só pela crítica do sujeito

e pelo proposital embaralhamento da verdade, mas especialmente pela cultura

da espetacularização.


Referências

KLINGER, D. Escritas de si, escritas do outro: o retorno do autor e a virada

etnográfica. 3. ed. Rio de Janeiro: 7Letras, 2012.

LEJEUNE, P. O pacto autobiográfico: de Rousseau à internet. Organização de Jovita

Maria Gerheim Noronha. 2. ed. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2014.

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